Investimentos em títulos públicos são "realmente" livres de risco?

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Por Jair Lemes

Títulos do tesouro são considerados em muitas economias como “livres de risco”, mas os mercados emergentes são cercados por turbulências econômicas e financeiras, e a crise decorrente da pandemia pode ter provocado um aumento do risco dos títulos soberanos de alguns destes países, incluindo o Brasil.

O mundo já está cheio de países ultra endividados, (suas dívidas são praticamente impagáveis) mas ainda assim investidores continuam investindo neles ou em diversos produtos de Renda Fixa que, por sua vez, investem nestes mesmos títulos ou tem exposição de risco a eles de alguma forma. Afinal, você tem que investir em alguma coisa. Assim, muitos investidores compram títulos do Tesouro.

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Os Governos de mercados emergentes devem aproximadamente 24% do total global. Muitos deles tiveram seus ratings de crédito cortados desde o começo de 2020 pela Fitch, mais do que em todo o ano anterior. A Argentina não conseguiu fazer frente a um pagamento de aproximadamente U$ 500 milhões em seus títulos de dívida estrangeiros. Se não conseguir convencer os credores a trocarem ou rolarem seus títulos até 22 de maio de 2020, o país estará em inadimplência pela nona vez em sua história. Outro exemplo seria o Equador, que adiou U$ 800 milhões em pagamentos de títulos por quatro meses para ajudá-lo a lidar com a pandemia; Líbano, que deixou de pagar U$ 1,2 bilhão em março; e Venezuela, que deve barris de dinheiro (e petróleo) a seus detentores de títulos, banqueiros e benfeitores geopolíticos na China e na Rússia. Em breve, esses devedores poderão se juntar à Zâmbia, que procura contratar consultores para um “exercício de gerenciamento de responsabilidades”, um acordo para pagar aos credores em menor valor e com um prazo maior do que o prometido.

À medida que a pandemia causa estragos nas economias e nas finanças públicas, a pergunta natural é: quem é o próximo? Mais de 100 países, incluindo a África do Sul, pediram ajuda ao FMI que já aprovou 40 dos pequenos empréstimos rápidos que fornece após desastres naturais. Alguns países são clientes fiéis. O Egito também está buscando um novo resgate apenas nove meses depois de ter baixado a parcela final de um empréstimo acordado em 2016.

A notícia positiva é que sentimento de pânico já começou a diminuir. As linhas de swap do “Federal Reserve” (O Banco Central Americano) para 14 bancos centrais – incluindo Brasil, México e Coreia do Sul – ajudaram a diminuir a escassez global de dólares. As saídas de capital diminuíram e os rendimentos dos títulos de mercados emergentes caíram.

A Covid-19 afeta as economias emergentes de pelo menos três maneiras: isolando suas populações, prejudicando suas receitas de exportação e impedindo a entrada de capital estrangeiro. Mesmo que a pandemia desapareça na segunda metade do ano, o PIB nos países em desenvolvimento, medido pela paridade do poder de compra, será, ao menos, 6,6% menor em 2020 do que o FMI havia previsto em outubro.

Para enfrentar a crise, as economias emergentes podem precisar de pelo menos US $ 2,5 trilhões, segundo o FMI, de fontes estrangeiras ou de suas próprias reservas. Uma maneira de garantir que os países tenham mais moeda forte é parar de tirá-la deles. O grupo de governos do G20 disse que se abstém de receber pagamentos este ano em seus empréstimos aos 77 países mais pobres (embora os mutuários tenham que compensar a diferença posteriormente).

Alguns países têm grandes déficits fiscais ou externos; outros têm dívidas altas. Em alguns, o elo mais fraco é o governo; em outros lugares, é o setor privado. A dívida pode ser em grande parte doméstica, ou pode ser devida a estrangeiros – e às vezes em moeda estrangeira também.

Os países emergentes mais fortes, como Coreia do Sul e Taiwan, são superqualificados para o papel dos mercados emergentes. Muitas economias maiores, incluindo Rússia e China, também parecem robustas.

A crise financeira asiática de 1997 mostrou que fortes finanças públicas não são suficientes para proteger uma economia emergente se empresas privadas tomarem empréstimos pesados ​​no exterior. A dívida pública da Mongólia parece administrável (menos de 70% do PIB), mas sua dívida externa (pública e privada) é quase o dobro do PIB. Por outro lado, as conhecidas fragilidades fiscais do Brasil e da Índia estão confinadas em suas próprias fronteiras.

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Jair Lemes – É diretor de Gestão e CEO da Brava Capital, apresentador do quadro Capital Inteligente no programa Inova 360, na Record News, e tem coluna sobre o tema no Inova360/R7. É especialista em investimentos e finanças, com certificação CFA, e professor de Finanças na CFA Society Brasil.

LinkedIn: https://www.linkedin.com/in/jairlemes/