Qual a responsabilidade do consumidor no caos corporativo?

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Por Marcio Bueno

Em mais de 70 artigos tenho falado sobre a responsabilidade das empresas na construção social.

Tenho apontado os pontos que considero importantes para as empresas elevarem seu nível de consciência e humanização para melhorarem seus resultados e construírem um mundo melhor.

Em muitas situações tenho denunciado, segundo minha visão, os despropósitos, hipocrisias, irresponsabilidades, sejam propositais ou por falta de conhecimento.

Mas será que o consumidor não tem nenhuma parcela de culpa em tudo isso?

Uma empresa obedece a dois vetores de força, um deles é a ambição de seus acionistas e o segundo é o comportamento de seus clientes.

Quanto maior a ambição maior a probabilidade de se tornar ganância.

E seguindo a brilhante frase de Eliyahu M. Goldratt:

“Diga-me como me medes e eu te direi como me comportarei”.

A ambição desmedida de crescimento, só focada em resultados financeiros, aumenta consideravelmente o risco de cometer deslizes éticos em nome de um bem maior.

Normalmente as justificativas são gerar empregos e arrecadar mais impostos, mas a realidade é que esse bem maior normalmente é o bem próprio.

O segundo vetor de força é o comportamento do consumidor.

Pode ser consciente, buscando produtos e empresas conscientes e pagando um preço justo, ou pode ser como tem sido…

Exigindo menores preços, comprando em sites com produtos de procedência duvidosas ou diretamente de uma produção que provoca injustiça social.

Quantas vezes, em bate-papo com amigos vemos as pessoas reclamando que a qualidade dos produtos tem baixado, os comércios locais estão fechando, o desemprego aumentando, o governo não faz nada, e dez minutos depois conta que comprou um produto em um site chinês.

O produto comprado pode ser mais barato por vários motivos. Primeiro por economia de escala, por ter menor tributação, menor custo produtivo, mas também pode ser porque não respeita as condições mínimas de trabalho, não paga um salário justo, e assim por diante.

Mas não importa, como é mais barato eu fecho os olhos e compro.

Se a pessoa que produziu vive em condições de miséria não é nosso problema, está longe mesmo…

Se eu contribuo para destruir empregos e empresas locais, não me importa.

O único que importa é comprar mais barato!

Veja bem, não quero insinuar um comportamento protecionista e me fechar para o mundo, talvez é importante sempre avaliar com uma perspectiva mais ampla que o preço do produto.

O consumidor também deve elevar seu nível de consciência e considerar o impacto de seu comportamento.

Não seria justo considerar que todos os problemas que temos na sociedade são responsabilidade das empresas.

O consumidor tem o poder de mudar as empresas, mas não o exerce, é mais fácil reclamar, porém fazer o mesmo.

E não me refiro somente a produtos, também a serviços e conteúdos.

Conheço pessoas que passaram anos reclamando que a programação da TV caiu a qualidade, mas consome.

Reclama que não se fazem música como antigamente, mas consome a atual.

Então do que estamos falando?

Se eu considero que a qualidade não é boa, eu não devo consumir. Esta é a minha forma de exigir um aumento de qualidade.

Se a TV aberta é ruim em sua opinião e você não pode pagar por um conteúdo de maior qualidade, vá a biblioteca pública de sua cidade e pegue um livro e não dê sua audiência a quem não a merece.

Não é uma questão de dinheiro e sim de consciência.

Consumidor exigente motiva a empresas serem melhores e oferecem produtos de maior qualidade a preços mais competitivos.

Consumidor consciente exerce um vetor de força em mesma direção, porém sentido contrário à ganância corporativa, reduzindo seu impacto negativo.

Consumidor medíocre e irresponsável contribuem para que empresas sejam inconscientes, exercendo uma força na mesma direção e sentido de sua ganância, potencializando e incentivando seu comportamento nocivo.

Que tipo de consumidor é você?

Melhor ainda.

Que tipo de consumidor você quer (e vai) ser?

 

Marcio Bueno assina a coluna “Tecno-Humanização”, no Inova360, parceiro do portal R7, e apresenta um quadro sobre o tema no programa de TV Inova360, na Record News. É Tecno-Humanista, fundador da BE&SK e criador do conceito de Tecno-Humanização.

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